Também
não era para menos. Na atual Rua Camerino, funcionou
antigamente um porto negreiro, onde os escravos eram desembarcados
e vendidos em trapiches onde hoje é a Praça
Mauá. Hoje, na Rua Pedro Ernesto, existe um centro
cultural em homenagem ao antigo cemitério de escravos
que ali funcionou. E, numa casa da Rua do Livramento,
nasceu o romancista mulato Machado de Assis, a maior glória
da literatura brasileira.
Gamboa,
Saúde e Santo Cristo, bairros pequenos, próximos
um do outro, que parecem ser um só, pode se tornar
na nova bola da vez da revitalização de
áreas decadentes depois da Lapa. Além de
abrigar um patrimônio histórico invejável,
os bairros começam a ver crescer as atividades
culturais, como, por exemplo, a feira e os shows do grupo
afro “Escravos da Mauá”. Nos antigos
armazéns do cais do porto, existem diversas atividades
culturais.
Para
a comunidade negra, a revitalização pode
ser uma saída interessante de complementação
de renda, pois, as manifestações da cultura
negra podem ser produtos empreendedores. A antiga Pedra
do Sal – local onde os escravos deixavam sacos de
sal após descarregar dos navios -, tombada pelo
estado em 1984, ampliou sua ação cultural.
Agora, nos fins de semana, podem ser encontrados ali petiscos
e muita samba de raiz.
Este
era um programa das “antigas”, em geral, feito
por Pixinguinha, João da Baiana, Donga, Heitor
dos Prazeres, Bola Sete, Vagalume e outros bambas da Belle
Époque carioca, que, ali, na Pedra do Sal, batiam
ponto para conversa fiada, mostrar a mais nova composição
ou falar dos amigos e das coisas da vida.
Os
descendentes de escravos destes bairros estão organizados
para tornar a Pedra do Sal e adjacências na categoria
de “quilombo urbano” junto ao Incra. O movimento,
que envolve muitos grupos no bairro, já se estendeu
para as escolas.
No
ano passado, alunos da Escola Municipal Darcy Vargas,
com apoio da Fiat, lançaram o livro de poemas,
contos e crônicas “ Pedra do Sal: um quilombo
urbano”. A proeza foi muita festejada por causa
do protagonismo juvenil. No livro, além das ilustrações,
os alunos falam da importância do samba, das tias
baianas que ali moraram, do casario antigo e do espírito
comunitário da região.