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A LAPA DO FUTURO

Casarões antigos e memória contagi-ante. Este binômio caracteríza três bairros antigos, encravados entre a Praça Mauá e o Túnel João Ricardo, chamados de Saúde, Gamboa e Santo Cristo, surgidos em fins do século XIX, no Centro. Os bairros foram apelidados pelo sambista Heitor dos Prazeres de “Pequena África”, no início do século XX, devido à presença massiva de africanos e de seus descendentes pelas ruas.

Também não era para menos. Na atual Rua Camerino, funcionou antigamente um porto negreiro, onde os escravos eram desembarcados e vendidos em trapiches onde hoje é a Praça Mauá. Hoje, na Rua Pedro Ernesto, existe um centro cultural em homenagem ao antigo cemitério de escravos que ali funcionou. E, numa casa da Rua do Livramento, nasceu o romancista mulato Machado de Assis, a maior glória da literatura brasileira.

Gamboa, Saúde e Santo Cristo, bairros pequenos, próximos um do outro, que parecem ser um só, pode se tornar na nova bola da vez da revitalização de áreas decadentes depois da Lapa. Além de abrigar um patrimônio histórico invejável, os bairros começam a ver crescer as atividades culturais, como, por exemplo, a feira e os shows do grupo afro “Escravos da Mauá”. Nos antigos armazéns do cais do porto, existem diversas atividades culturais.

Para a comunidade negra, a revitalização pode ser uma saída interessante de complementação de renda, pois, as manifestações da cultura negra podem ser produtos empreendedores. A antiga Pedra do Sal – local onde os escravos deixavam sacos de sal após descarregar dos navios -, tombada pelo estado em 1984, ampliou sua ação cultural. Agora, nos fins de semana, podem ser encontrados ali petiscos e muita samba de raiz.

Este era um programa das “antigas”, em geral, feito por Pixinguinha, João da Baiana, Donga, Heitor dos Prazeres, Bola Sete, Vagalume e outros bambas da Belle Époque carioca, que, ali, na Pedra do Sal, batiam ponto para conversa fiada, mostrar a mais nova composição ou falar dos amigos e das coisas da vida.

Os descendentes de escravos destes bairros estão organizados para tornar a Pedra do Sal e adjacências na categoria de “quilombo urbano” junto ao Incra. O movimento, que envolve muitos grupos no bairro, já se estendeu para as escolas.

No ano passado, alunos da Escola Municipal Darcy Vargas, com apoio da Fiat, lançaram o livro de poemas, contos e crônicas “ Pedra do Sal: um quilombo urbano”. A proeza foi muita festejada por causa do protagonismo juvenil. No livro, além das ilustrações, os alunos falam da importância do samba, das tias baianas que ali moraram, do casario antigo e do espírito comunitário da região.

Fonte: Jornal ASFUNRIO

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