Por:
Vanderlei Macris*
Duas
tragédias em dez meses e ocorrências menores,
como várias derrapagens nas pistas e arremetidas
de aeronaves, principalmente no Aeroporto de Congonhas,
em São Paulo, corroboram dados que acabam de ser
divulgados pelo Aviation Safety Network, site vinculado
à Flight Safety Foundation, entidade sem fins lucrativos,
cuja missão é monitorar e prestar consultoria
sobre segurança na aviação. Nos últimos
dois anos, o Brasil foi o país com o maior número
de vítimas fatais no setor, e as quedas do Boeing
da Gol, em setembro de 2006, e do Airbus da TAM, neste
triste julho de 2007, incluem-se entre os mais graves
de um total de 12.200 acidentes listados no cadastro da
organização, desde 1943. Assim, em meio
à dor dos familiares das vítimas e de todos
os brasileiros, é preciso consciência e responsabilidade
das autoridades, pois é nítida a existência
de aguda deficiência na gestão do sistema
aéreo.
Tal
desafio exige o diagnóstico preciso dos problemas
que estão elevando o risco de voar no Brasil acima
das estatísticas da fatalidade. Independentemente
das investigações técnicas das causas
pontuais do choque do avião da Gol com o Legacy
e da fatal aterrissagem mal-sucedida da aeronave da TAM
em Congonhas, a verdade é que já é
possível compreender com clareza os problemas que
provocam o colapso do sistema nacional de transporte aéreo.
Didaticamente, podemos dividi-los em quatro causas distintas,
mas intercomplementares.
A
primeira é a ausência de investimentos em
proporção adequada à expansão
do tráfego aéreo. Faltaram estudos e planejamento
que permitissem ajustar no tempo certo o sistema de controle
ao crescimento da demanda. Os equipamentos das torres
são tecnologicamente adequados, mas estão
defasados em termos quantitativos. É possível,
com os recursos modernos da tecnologia da informação
e telecomunicações, ajustar melhor o sistema,
agregando equipamentos, mesmo que à distância,
para ampliar a capacidade de controle de aeroportos mais
movimentados, como Congonhas e Governador André
Franco Montoro, em São Paulo, Santos Dumont e Tom
Jobim, no Rio de Janeiro. Porém, é preciso
investir, já, na ampliação de todo
o complexo operacional.
A
segunda causa é a questão trabalhista dos
controladores de vôo. Sendo parcela dos profissionais
militares e outra civil, estabeleceram-se diferenças
entre iguais. Além disto, é clara a ocorrência
de horas excessivas de trabalho e a defasagem salarial
em relação ao exercício dessa profissão
em outros países. Também há falta
de profissionais, pois não se preocupou em sistematizar
sua formação, que demora, no mínimo,
dois anos. O acidente da Gol, em setembro de 2006, expôs
todas essas feridas. A partir da tragédia, os controladores
passaram a extravasar o problema, percebendo que não
mais poderiam permitir que a responsabilidade recaísse
apenas sobre eles. Há solução, bastando
investir mais na formação e solucionar a
questão trabalhista.
A
terceira causa é ligada à defasagem de investimentos
em infra-estrutura. É preciso ter consciência
de que o Aeroporto de Congonhas é absolutamente
inadequado. Suas pistas, além de relativamente
curtas, não têm áreas de escape; as
arremetidas são muito difíceis em função
do emaranhado de prédios; e as manobras de espera,
as chamadas “prateleiras”, bem como de aproximação
e início do vôo são muito dificultadas
pela simbiose entre a arquitetura da maior cidade da América
Latina e o imenso volume de aviões. Em síntese,
o aeroporto mais movimentado do País não
permite erros, o que desafia a natureza humana e contraria
a lógica das máquinas.
Sem
alarde e de modo muito sério, é pertinente
e honesto reconhecer: Congonhas apresenta riscos maiores
do que o aceitável na lei das probabilidades! São
Paulo precisa de um novo aeroporto! E que se planejem
obras futuras em outras capitais e cidades grandes do
Interior, para evitar que mais terminais aeroportuários
também se transformem em áreas de risco
em meio ao crescimento demográfico e econômico.
A
quarta causa — à qual todas as demais estão
relacionadas — é política. Como a
questão não havia atingido um ponto crítico,
não fazia parte da preocupação dos
brasileiros e tampouco tinha significativo apelo eleitoral,
foi esquecida. Empurrou-se com a barriga um problema sério.
No primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, o crescimento mundial da economia e o aumento
do volume de tráfego aéreo já indicavam
a necessidade de investimentos, mas nada se fez em quatro
anos. O próprio Sistema Integrado de Gestão
Financeira do Governo Federal (Siafi) demonstra que, no
ano passado, aplicaram-se apenas 50% do previsto no sistema.
Há um visível descaso. Os diagnósticos
são claros. Cabe ao governo reconhecê-los,
admitir seus erros e trabalhar com rapidez e eficácia
para recuperar o tempo perdido e restabelecer a normalidade
do sistema de transporte aéreo.
*Vanderlei
Macris, parlamentar por São Paulo, é vice-líder
do PSDB na Câmara dos Deputados e autor da proposta
da CPI do Apagão Aéreo.