Aquecimento
global
Sete dos principais climatologistas do planeta assinaram
no dia 2 de fevereiro, na revista americana “Science”
(www.sciencemag.org), um artigo em que mostram como as mudanças
decorrentes do aquecimento global foram mais rápidas
do que esperava a ONU em 2001. O alerta antecede o tom da
apresentação, em Paris, do novo relatório
da instituição sobre o tema.
“Eu diria que o IPCC (Painel Intergovernamental de
Mudanças Climáticas) está fazendo um
trabalho excelente. Mas digamos que ele tende mais a uma
posição cautelosa demais, em vez da alarmista”,
explicou um dos autores, o alemão Stefan Rahmstorf,
do Instituto Potsdam de Pesquisa do Impacto Climático.
Além de Rahmstorf, especialista em física
dos oceanos, assinam o texto o americano James Hansen, da
Nasa, um dos primeiros defensores públicos de medidas
para evitar as mudanças climáticas, e Ralph
Keeling, filho de Charles, a primeira pessoa que mediu o
aumento do nível de dióxido de carbono (CO2)
na atmosfera, indicando seu impacto no equilíbrio
da Terra.
Os cientistas compararam as antigas previsões do
IPCC para o período de 1990 (base para o Protocolo
de Kyoto) a 2006 a dados coletados até o ano passado.
Como toda previsão climática, feita com base
em dados coletados em campo e modelos matemáticas
refinados, há uma margem de acerto e de erro.
Segundo eles, o IPCC acertou quanto à concentração
de CO2 (380 partes por milhão), quase perdeu no acréscimo
de temperatura (0,33ºC, o cenário mais quente
do painel) e errou feio na projeção do aumento
do nível dos oceanos (menos de 2 milímetros
por ano, quando na verdade foi de 3,3 mm).
Preparação
Com o artigo, os sete não pretendem criticar o trabalho
do painel - do qual todos fazem parte - mas sim “afastar
o mito de que o IPCC tem “exagerado” o aquecimento
global”, diz o alemão. É quase uma ação
preventiva. Hoje, onovo relatório do IPCC mostrará,
preto no branco, que o homem é sim o culpado pelo
aquecimento global. A certeza é de mais de 90% -
o que, no jargão científico, é responsabilidade
inequívoca.
O dado desmente aqueles que dizem que a Terra está
apenas passando por mais um ciclo natural e que as atividades
humanas têm pouco impacto no clima. Uma saída
para os “céticos do aquecimento” é
colocar o próprio IPCC em dúvida - tese difícil
de se defender com esta análise na Science.
Com o fato consumado, o debate político e o econômico
mudam. Países que não assumiram ainda sua
parcela de culpa, especialmente os Estados Unidos, serão
pressionados a mudar seu estilo de produção
e consumo. Nações em desenvolvimento, entre
elas o Brasil, terão de encontrar alternativas para
frear suas emissões de gases-estufa sem perder o
trilho do crescimento.
Depois deste, o próximo estudo do IPCC só
sai em 2012, quando termina o prazo inicial do protocolo,
como lembra o brasileiro Paulo Artaxo, membro do painel.
“Este relatório será a base das negociações
pós-Kyoto. Imagina as repercussões econômicas...”
Artaxo diz que o tempo é curto para evitar as conseqüências
mais perigosas. As mudanças climáticas não
são mais uma projeção, mas realidade.
O novo relatório mostra, por exemplo, que o aumento
dos furacões violentos como o Katrina, que destruiu
em 2005 a cidade americana de Nova Orleans, estão
ligados ao aquecimento global. No futuro, eles serão
ainda mais fortes nas Américas.
Apesar da urgência, o IPCC não deve adotar
o tom alarmista. Deixará a outras esferas da ONU
e aos governos este papel. Os dados, acreditam os integrantes
do painel, serão suficientemente fortes para acelerar
mudanças - também porque o grau de incerteza
diminuiu desde o último relatório. “Não
tenho certeza se um alerta mais pavoroso provocaria uma
reação mais rápida e apropriada”,
diz Rahmstorf. “Acredito que devemos atuar com a informação
mais precisa possível.
Fonte:
Jornal ASFUNRIO |