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NÃO SE VIVE MAIS SEM ELES


Por: Andrea Gouvêa Vieira*

Bandido existe na cidade toda. Vítima também. A diferença está em quem presta socorro às vítimas dos bandidos comuns. Nas comunidades pobres do Rio, quem faz isso é o tráfico, que agora perde espaço para as milícias armadas, enquanto o povo pobre assiste calado à mudança de guarda. Não há júbilo, não há reclamação.

Dizem que existe alívio em alguns lugares, mas há mesmo resignação em todos, porque as comunidades pobres do Rio sabem que não podem viver sem os bandidos, que os protegem de outros bandidos. Essa é a realidade!

Quando sai para trabalhar ou para procurar emprego, o morador da comunidade pobre precisa ter a certeza de que a sua casa não será arrombada, a filha não será estuprada, o terreno não será ocupado, a moto não será roubada, a birosca servirá fiado e a van estará circulando. E, se um marido chegar à ameaça, ter quem resolva a parada.

Assim, para garantir sua mobilidade, para tornar viável seu dia-a-dia, o pobre do Rio se submete a quem está apto a lhe prestar os serviços que o Estado ? a Polícia e a Justiça - nunca conseguiram prestar. É impensável, hoje, em qualquer comunidade pobre do Rio, a vida sem o dono local, que organiza, controla, julga e executa, seguindo regras próprias e como se Estado fosse.

Tentar buscar nas milícias qualquer virtude que as diferenciem dos traficantes - e há, nesse momento, quem tenta fazê-lo - significa entregar definitivamente os pontos. Se traficante é bandido, e bandido é bandido, a milícia é o bandido que o Estado financia com os salários que paga e envia em seu lugar. A lógica que move o tráfico e a milícia é a mesma. Não há nenhum mérito nela. Não é para salvar vidas que as milícias aparecem. É para ganhar dinheiro. Visam o lucro, tal como o tráfico. Protegem os negócios irregulares próximos a seus pontos de domínio, exigem pagamento aos moradores, controlam o negócio do gás, vendem na planta os condomínios e casas populares em terrenos que ocupam sistematicamente, oferecem crédito e extorquem juros.

Se o adolescente for apanhado fumando maconha, é punido com a expulsão e se a família reclama, é obrigada a sair junto e isso é aceito pela população pobre, porque o Estado não aparece como opção. Há, no entanto, um elemento novo que diferencia os dois grupos de poder paralelo.

O tráfico que vive nos morros nunca conseguiu (dizem que nunca se incomodou) buscar a influência ou ligações diretas na Política e no Judiciário. A inspetora Marina Maggessi, policial que conhece o modo como opera o tráfico de drogas, costuma dizer que o tráfico é que é assediado pela política e não o contrário.

As milícias crescem exatamente com base no poder político e quemacompanha os movimentos dessa turma, que age localmente e não tem, até agora, um comando único na cidade, diz que é alarmante, para a sociedade, o espaço político que alcançou nas últimas eleições, com apoio de autoridades constituídas.

Sem que se perceba com a mesma nitidez, cresce também na cidade formal a busca pela proteção do poder paralelo. A vítima do bandido comum proibido de trabalhar em casa ou próximo dela, encontra cada vez menos, no Estado legal, guarida na segurança do cotidiano. Ou alguém terá a coragem de negar que a vigilância das ruas próximas às comunidades pobres é feita de comum acordo com o poder paralelo local, seja ele o traficante, seja ele a milícia?

No frigir dos ovos, a sociedade carioca vai entrando naquela história horrorosa que o mundo conheceu: primeiro eram judeus, então não era comigo; depois os comunistas e eu não era um deles; chegou à vez dos católicos e também escapei; até que... Sabe-se que o tráfico de drogas com base nas comunidades carentes está em baixa e é pena que neste momento de fragilidade dos traficantes, quando ficou para trás o tempo em que adolescentes e jovens eram aliciados por salários acima de dois mil reais por semana, o Estado deixe escapar a oportunidade de ocupar os espaços e a chance de levar para as comunidades pobres a delegacia legal, o defensor público e o juiz. É tudo do que elas precisam para dar um basta nessa gente que, sob o manto frágil da proteção, as maltrata.

*Andrea Gouvêa Vieira é vereadora

Fonte: Jornal ASFUNRIO

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