| CIDADANIA,
POLÍTICAS URBANAS E O CAVEIRÃO NA REGIÃO
ADMINISTRATIVA DA MARÉ
A
criação em 1961 das Regiões Administrativas
(Ras) no município do Rio de Janeiro foi idealizada
pelo ex-ministro da Desburocratização, Hélio
Beltrão, e pelo ex-governador do Estado da Guanabara,
Carlos Lacerda. A criação, neste caso, obedeceu
aos critérios técnicos estabelecidos na experiência
das subprefeituras de Paris, em cidades com, no máximo,
200.000 habitantes.
As idéias dos urbanistas renomados - adaptadas pelos
nossos governantes - afirmavam que as cidades iriam crescer
e se avolumarem de problemas, ficando difícil para
um governante administrar o caos urbano do seu gabinete.
Segundo a mesma ideologia urbanística, cidades que
ultrapassam 1 milhão de habitantes geram problemas
infinitos, necessitando de uma resposta rápida na
solução do buraco da rua, na falta de vagas
na escola, no atendimento hospitalar etc.
A descentralização administrativa e orçamentária,
dotando as Regiões Administrativas de poder político,
foi um grande marco de desenvolvimento urbano. O maior privilegiado
foi a população organizada. Mas qual foi a
eficácia, na prática, da criação
destas subprefeituras e Regiões Administrativas no
Rio de Janeiro?
Para responder esta pergunta temos que necessariamente nos
reportar ao antigo Estado da Guanabara, onde as RAs eram
dotadas de orçamento e poder político. Para
termos uma idéia, basta dizer que até o delegado
policial e os chefes de órgãos locais eram
indicados pelos administradores regionais que estavam subordinados
hierarquicamente.
Neste sentido, até os secretários municipais,
como o de Obras, não podiam atropelar o trabalho
do administrador regional, já que sua função
era eminentemente técnica e executiva, desempenhando
também papel relevante, mas secundário em
comparação com o administrador, evitando-se
o clientelismo político.
Conselho Governo-Comunidade
Os primeiros administradores regionais eram funcionários
de carreira que tinham em seu currículo uma conduta
ilibada e grande experiência administrativa. O apogeu
e o sucesso das RAs, deveu-se ao fato de serem descentralizadas
e dotadas de orçamento, além do poder influenciar
em escolha de cargos no aparelho policial.
Com o tempo, veio a desfusão e a criação
do município da cidade de Rio de Janeiro, dando lugar
ao clientelismo político. Em 1988, criaram-se as
chamadas RAs de Favelas, quais sejam, as do Jacarezinho,
Rocinha, Alemão e a do Complexo da Maré, a
XXX RA. Na Maré, o “prefeitinho” foi
indicado pelas entidades de defesa da comunidade, o que
levou a RA ter uma grande participação popular.
O chamado CGC (Conselho Governo Comunidade), idealizado
pelo ex-prefeito Saturnino Braga, obrigava osórgãos
locais a se reunirem mensalmente. Isso de uma alguma forma
envolvia toda a comunidade e tinha respaldo aos lideres
das entidades de moradores.
Hoje, a XXX RA está lá, só que esvaziada
politicamente. Depois de 1988, os ocupantes do cargo de
administrador regional passaram a ser os políticos
da área, uma espécie de partilha de poder,
com vereadores e deputados da base governista. Agora, cabe
uma pergunta: essas nomeações são eficazes?
A comunidade da Maré tem na RA, um Centro de Desenvolvimento
e Articulação Política? Creio que não,
já que as associações de moradores,
comércio, universidades e outros órgãos
do executivo estadual e federal não participam das
decisões conjuntas, prevalecendo a tradicional política
franciscana, qual seja, “é dando que se recebe”.
É inegável que a Prefeitura do Rio, através
de parcerias com ONGs, (Vila Olímpica da Maré),
tem realizado vários trabalhos de interesse da juventude
e da população. Mas a pergunta que eu faço
é: porque o CAVEIRÃO? Porque o governo Estadual
e o Federal não sentam com as lideranças locais
na RA, para resolver os conflitos de violência? Tenho
perguntado aos moradores da Marée às lideranças
locais, o que eles acham do CAVEIRÃO? A resposta
que obtive por consulta dos moradores não poderia
ser mais assustadora, ou seja: a população
tem verdadeiro pavor e medo da polícia por culpa
do próprio governo.
Vejo também que os próprios policiais são
vitimas do clientelismo político. Não seria
a hora do governo federal, municipal e estadual atuar conjuntamente
na Região Administrativa? Muita coisa mudou no Complexo
da Maré com o trabalho de instituições
sérias, tais como: o Observatório de Favelas
e do CEASM, onde os jovens são capacitados para o
mercado de trabalho e ingresso nas universidades. São
ações como esta que nos dão a sensação
de que nem tudo esta perdido.
*Reinaldo
de Jesus Cunha
Suplente do Conselho de Administração do Previ-Rio
Suplente do Conselho Municipal de Assistência Social,
CMAS/RJ
|