A
ESCOLINHA DO CAPITÃO NASCIMENTO
Brasil
vem vibrando com as façanhas do capitão
Nascimento do Bope (Batalhão de Operações
Especiais) da Polícia Militar do estado do
Rio de Janeiro, interpretado por Wagner Moura no
filme “Tropa de Elite”. Ele é
um oficial de métodos ilegais e cujo foco
é atacar favelados, pois, estes, na ótica
do militar, geraram uma doença, “ o
tráfico de drogas”, que precisa ser
extirpada da vida social de qualquer maneira.
Neste sentido, é bom indagar: é possível
um personagem com esses traços ter tanto
apoio e aplauso pela prática de suas atividades
policiais na atual conjuntura ? Não estaria
havendo inversão de papéis, ou seja,
o policial inteligente, seguidor das normas do direito
e consciente da complexidade criminal, sendo trocado
pelo truculento, quebrador de regras e incontrolável
enquanto servidor público ?
Sim, é possível. Isto porque as elites
dirigentes e parte da classe média acham
necessário ter historicamente chacinas de
populações pobres a partir da criminalização
de determinados grupos humanos. Antes, eram os capitães
do mato, capturando escravos. Hoje, temos outra
configuração, mas com objetivos idênticos.
Historicamente, as elites políticas sempre
exigiram mais repressão contra estes grupos
marginalizados, e não seria hoje que estariam
apresentando outro posicionamento.
O atual comandante da PM, coronel Ubiratan Angelo,
num debate no jornal “O Globo”, disse
mesmo que policiais como o personagem Nascimento
agem assim porque a classe média não
protesta contra atos ilegais e violentos deste tipo
de policial e das políticas repressivas que
estão por detrás dela.
Ora, aqui, começamos um encontrar uma linha
de debate. Sabem da onde vem todo a ideologia de
militarismo exacerbado de Nascimento e do seu batalhão
de homens especiais ? Da política externa
de controle policial ensejada há mais de
um século pelo Departamento de Estado dos
EUA através de seus programas de ajuda de
organização das polícias latino-latino-americanas,
segundo Martha Huggins no livro “ Polícia
e política: relações Estados
Unidos/América Latina” (Cortez Editora,
São Paulo: 1998).
Através da Office of Public Safety (Seção
de Segurança Pública) do governo dos
EUA, a partir da ditadura militar(1964-1985), vários
consultores deste organismo, segundo ela, estiveram
no Brasil para reorganizar as polícias e
os organismos de repressão das forças
armadas no combate à subversão. Entre
estes consultores, que instrumentalizaram a tortura
na vida dos organismos de repressão estavam
Dan Mitrione, que depois foi morto pelo grupo guerrilheiro
Tupamaros, no Uruguai.
Além de sofisticarem as técnicas de
torturas de civis presos, os consultores americanos
ensinaram o patrulhamento de favelas através
da chamada “Operação Limpeza”,
levaram policiais para treinamento nos EUA, influenciaram
na criação de novos organismos policiais
e submeteram as duas polícias para o controle
das forças armadas.
Segundo estimativas conservadoras, apenas entre
1969/1974, pelo menos, 1.558 brasileiros foram torturados
por policiais ou militares durante interrogatórios.
Há estimativas segundo as quais 3.000 brasileiros
haviam sido assassinados ou presos, no primeiro
período militar (1964-1968). Segundo Huggins,
muitas vítimas dos militares foram enterradas
vivas.
A historiadora mostra ainda que os esquadrões
da morte, criados supostamente pelo general Amaury
Kruel, no final da década de 1950, ganham
nova concepção de emprego durante
o período militar e ficam incontroláveis.
Mais à frente, passam a “justiçar”
a população civil. Não é
à toa, portanto, que os integrantes deste
vigilantismo exacerbado sejam oriundos, em geral,
da polícia militar.
Para o cientista político e coronel reformado
da PM, Jorge da Silva, de meados dos anos 1990 em
diante, precisamente com a gestão do general
Nilton Cerqueira nas polícias fluminenses,
durante o governo Marcelo Alencar (1995-1998), houve
o que ele chama de “militarização
ideológica”, segundo ele explica no
ensaio “ Militarização da segurança
pública e a reforma da polícia: um
depoimento” ( Ensaios Jurídicos. O
Direito em Revista, São Paulo, 1999).
Trata-se, explica ele, da transposição
para a área da segurança pública
das concepções, valores e crenças
da doutrina militar, acarretando a instrumentalização
da idéia guerra (quando se tem um inimigo)
declarado ou potencial a ser destruído com
a força ou neutralizado com a inteligência
militar. Neste caso, é comum, então,
a polícia usar as táticas de cerco,
blitzen, tomadas de terreno e ocupar território,
conceitos da estratégia militar. Todos os
que protestam passam a ser inimigos e perigosos.
Isto porque atentam contra a segurança nacional
do estado.
O Bope é, neste sentido uma concepção
de segurança nacional implantada pela ditadura
militar com ajuda da escolinha norte-americana como
vimos mais atrás. Ele é um organismo
de defesa do Estado e não de defesa da sociedade
civil. Na medida em que encara os favelados como
inimigos, tem símbolos mortíferos
e apregoa a morte como política pragmática
da “paz”, podemos ver, então,
porque o filme de José Padilha vem conquistando
tanto sucesso: a sociedade quer sangue, quer a barbárie,
ela vem sendo estimulada para isso. E o principal
alvo desta violência é o favelado,
negro e pobre. Vide recentemente as operações
policiais no complexo do Alemão, onde a maioria
dos 45 vítimas eram negras e atingidas com
tiros pelas costas.
Não basta a PM fluminense ser talvez a mais
letal do mundo. Que de 1980 a 2002, houveram 700
mil homicídios dolosos no Brasil. Que a curva
dos homicídios cresce assustadoramente há
duas décadas.
O capitão Nascimento registra nossa dramática
tragédia cotidiana. A violência estatal
ganha aplausos no cinema, estimula a impunidade
e transfere para o aparelho policial nossas mais
sombrias doenças mentais.