| LULA
RENUNCIOU A SEGURANÇA PÚBLICA
JORNAL ASFUNRIO – O que o senhor
achou do documentário “Falcão - meninos
do tráfico”, produzido por MV Bill e Celso
Athayde?
LUIZ EDUARDO SOARES - O “Falcão”
é um documentário rico e bastante original,
porque apresenta um problema já conhecido, mas, desta
vez, por uma perspectiva nova, na medida em que os meninos
envolvidos no tráfico são ouvidos com familiaridade.
Assim, o vídeo consegue desvendar para o público
o universo desses jovens de uma maneira mais profunda e
ampla.
JORNAL
ASFUNRIO - A partir deste filme, ao seu ver, o
que as autoridades precisam compreender para pôr fim
à violência no País?
LUIZ EDUARDO SOARES - É esse processo
de envolvimento com o tráfico precisa ser bem compreendido
para que possa haver erradicação da violência.
Para fazê-lo, se não adotamos o modelo da guerra,
que é absolutamente ineficaz - como a história
do Rio já demonstra - nós só temos
como alternativa a aplicação do modelo da
competição. O Estado tem de se credenciar,
se qualificar, para agir através de políticas
preventivas, competindo diretamente como o tráfico.
JORNAL
ASFUNRIO - De que jeito?
LUIZ EDUARDO SOARES - Precisa compreender o por quê
que os meninos estão sendo seduzidos, cooptados pelo
tráfico. E oferecer os mesmos benefícios que
eles recebem, mas com sinal invertido. Os meninos estão
sendo recrutados e se deixam atrair pelo tráfico
porque este oferece, além dos recursos materiais,
reconhecimento, valorização. Para estes meninos,
que sempre viveram tantas rejeições, donos
de uma auto-estima tão devastada, o tráfico
dá a eles a expeO presidente Luiz Inácio Lula
da Silva renunciou à segurança pública.
Assim o antropólogo Luiz Eduardo Soares, da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e Universidade Cândido
Mendes (Ucam) definiu a posição governamental
em relação ao crescimento da violência
e das ações de facções de presidiários
que controlam cadeias públicas do Brasil. Luiz Eduardo,
ex-secretario nacional de Segurança Pública,
é considerado um dos maiores estudiosos de criminalidade
do País, mas se desentendeu com Lula e Anthony Garotinho
no comando da segurança pública. Por isso,
voltou a trabalhar em universidades públicas e privadas.
Ele, recentemente, ao lado do capitão PM André
Batista e do ex-capitão Rodrigo Pimentel, lançaram
o livro “Elite da Tropa”, onde, através
da ficção reveriência do pertencimento
a um grupo. Isso é novo para esses meninos. Daí,
eles acabam encontrando no grupo do tráfico o reconhecimento,
sua casa, seu lugar, seu sentido no mundo, recebendo funções
importantes. É isso que seduz as nossas crianças.
JORNAL
ASFUNRIO - Como os governos deveriam se apropriar desta
forma de sedução para mudar esta realidade?
LUIZ EDUARDO SOARES - Teriam de oferecer a estes jovens
vulneráveis, da mesma maneira que o tráfico,
reconhecimento e valorização. Teriam de oferecer
acesso básico aos recursos. Mas para fazer isso,
temos que atuar nas áreas da educação,
da saúde, da cultura, do lazer, nas ações
comunitárias. E preciso tocar-lhes o coração,
a imaginação para que eles se sintam integrados
à sociedade pela via positiva. Esse é o modelo
adequado, para mim, para tentar desmontar a máquina
do tráfico.
la as diversas arbitrariedades cometidas pelo Bope (Batalhão
de Operações Especiais) da PM em favelas do
Rio de Janeiro. Ele também é autor de “Meu
casaco de general”, “Violência e política
no Rio de Janeiro”, “Cabeça de porco”
(outra parceria com MV Bill e Celso Athayde), entre outras
obras. Em entrevista exclusiva ao JORNAL ASFUNRIO, o antropólogo
fala da violência contra os mais fracos e diz que
o poder público tem que investir nas comunidades
carentes para combater o tráfico de drogas. Para
o antropólogo, o tráfico recruta as crianças
e os jovens porque oferece reconhecimento e valorização.
Para desfazer este círculo vicioso, Soares acredita
que o governo deveria competir diretamente com o tráfico,
oferecendo, através de outros mecanismos, valor e
respeito. Discutindo o “Falcão” Brasil
afora, percebi que a sociedade descobriu que os envolvidos
nessa historia não são grandes organizações,
grandes mafiosos, como alguns imaginavam. Na verdade, são
apenas crianças, seres frágeis, que têm
uma vida muito difícil, ganham pouco dinheiro e ainda
vivem pouco demais. É claro que essas crianças
têm atitudes cruéis, mas mesmo assim ainda
continuam sendo crianças. E, se são crianças,
nós somos co-responsáveis por esse processo.
Com “Falcão”, a sociedade passou a descobrir
o óbvio.
JORNAL
ASFUNRIO - O senhor acredita que as imagens do “Falcão”
irão mobilizar os governantes?
LUIZ EDUARDO SOARES - Não, acho que não. Porque
os governantes já estão cansados de saber
disso tudo. Eles têm acesso a tudo isso. O que os
governantes fazem é atender a expectativa da população.
O dia em que a população estiver outra expectativa
e orientar a opinião pública para solicitar
práticas diferentes, os governantes sem dúvida
mudaram as coisas. Além disso, há muita ignorância
e despreparo entre dirigentes e gestores. São muitas
vezes pessoas que confundem responsabilidade na segurança
pública com atividade policial.
JORNAL
ASFUNRIO - O senhor chegou a trabalhar na área da
segurança publica no Estado. O senhor ainda acredita
que algum governo irá mudar a realidade da violência
no Brasil?
LUIZ EDUARDO SOARES - Fui gestor, como subsecretário
de Segurança, Justiça e Cidadania, mas não
tive a responsabilidade completa. Naquela oportunidade (entre
1999 a 2000), tivemos uma experiência muito interessante
no Rio. De toda maneira, obtivemos os melhores resultados
agregados nos últimos 20 anos. Então, foi
uma demonstração prática de que é
possível fazer diferente.
JORNAL
ASFUNRIO - O senhor também trabalhou, no início
do governo Lula, como secretário nacional para gerir
o Plano Nacional de Segurança Pública. Mas
agora o programa montado pelo senhor está engavetado.
Como o senhor vê isso?
LUIZ EDUARDO SOARES - É, foi desenvolvido um trabalho
que, na verdade, foi uma ampliação da experiência
vivida no Rio de Janeiro. O que aconteceu é que o
governo Lula renunciou a segurança pública.
O nosso propósito era promover uma transformação
nas instituições de segurança pública,
orientando-as para a qualificação, de modo
que se tornassem mais eficientes. O projeto visava valorizar
os policiais, reduzindo-se assim a corrupção
e a brutalidade. Havia também o plano da desconstitucionalização
das polícias.
JORNAL
ASFUNRIO - Na sua opinião, o que fez o presidente
Lula mudar de opinião a respeito deste plano?
LUIZ EDUARDO SOARES - O presidente Lula perdeu o interesse
porque avaliou que, se ele liderasse esse processo de mudanças,
ele correria n risco político muito grave. Porque
qualquer morte que houvesse no Brasil ele seria o culpado.
Esse medo o fez recuar.
JORNAL
ASFUNRIO - O senhor se sentiu indignado com a decisão
do presidente?
LUIZ EDUARDO SOARES - Sim. Trabalhamos arduamente neste
plano sem receber dinheiro por isso. Foi um trabalho de
doação, de militância. O plano era tão
sério que chegou a atrair o respeito da oposição.
Mas o presidente capitulou. Isso e lamentável.
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