BRASIL
NÃO COMBATE RACISMO COMO DEVERIA, DIZ ONU
GENEBRA - A Organização das Nações
Unidas (ONU) criticou no início do mês, por
meio de um documento, as políticas nacionais brasileiras
de combate ao racismo e à demora na demarcação
de terras indígenas. Ao atacar o racismo, a ONU alerta
que o problema ainda está profundamente enraizado
no Brasil e denuncia o fato de que partes do aparelho de
Estado, Judiciário e mesmo a sociedade civil resistem
a medidas de combate ao racismo.
Essas são algumas das conclusões do relatório
feito pelas Nações Unidas sobre a situação
da discriminação no País. Apesar de
elogiar o fato de o governo reconhecer a existência
do problema, a ONU alerta que as declarações
ainda não se traduziram em mudanças concretas.
Por isso, faz cerca de 35 recomendações sobre
como superar a questão.
“Viajar pelo Brasil é como mover-se entre dois
planetas: um das ruas com cores vivas e raças misturadas
e outro dos corredores brancos dos poderes político,
social, econômico e da mídia”, afirmou
o autor do relatório, o senegalês Doudou Diène,
que esteve no Brasil em outubro de 2005 para investigar
o racismo. Para ele, é chocante a presença
ainda tímida de negros em cargos administrativos.
Nos bancos, por exemplo, apenas 10,8% dos funcionários
são negros.
“Há coisas muito graves ocorrendo no Brasil”,
afirmou o especialista. O documento será apresentado
aos demais países membros da ONU. O relator identifica
o racismo como uma conseqüência e um legado do
período da escravidão. “Afeta profundamente
a estrutura da sociedade brasileira”, afirma o documento.
Diène acredita que uma mudança de mentalidade
ainda será difícil, principalmente por causa
da ideologia da democracia racial ou do fato de muitos acreditarem
que as discriminações no Brasil são
apenas econômicas.
“Democracia racial é a máscaraideológica
da elite brasileira para não dizer que há
racismo”, critica o relator. Segundo ele, enquanto
persistir a idéia de que a discriminação
é só econômica, a implementação
de leis de combate ficará difícil. “A
discriminação, exploração e
marginalização continuam hoje”, afirma
o especialista.
Ele lembra que 47% dos negros vivem abaixo da linha da pobreza,
contra uma taxa de 22% entre os brancos. Toda a sociedade
está organizada a partir de uma perspectiva racista:
os negros são excluídos de todos os setores
da sociedade e confinados aos trabalhos difíceis,
com baixos salários e direitos básicos, incluindo
à vida, sendo violados”, alerta o documento.
Um dos pontos que mais chamam a atenção da
ONU é a violência contra os negros. Diène
aponta que 631 negros foram assassinatos em Salvador nos
oito primeiros meses de 2005, um aumento de 19% em relação
a 2004. “Uma política de extermínio
ainda existe. Os negros não se sentem protegidos
pelas autoridades públicas e são confundidos
com traficantes de drogas e criminosos.”
A impunidade estaria no centro da preocupação
da entidade. “Os jovens estão nas mãos
de traficantes e a polícia não os protegem.
Ao contrário, os mata. Os negros são criminalizados”,
aponta o relatório. A pobreza da população
negra também seria outra prova do racismo.
Segundo o documento, mais da metade dessa parcela da população
vive abaixo da linha da pobreza, sem saúde e com
um nível de analfabetismo “inaceitavelmente
alto”.
As mulheres negras vivem uma situação ainda
mais delicada: ganham 40% dos salários pagos a um
homem branco.
Um quinto delas é trabalhadora doméstica,
das quais 17% nem sequer recebem pelo trabalho. Para Diène,
há ainda “uma apropriação indevida
da cultura”, com a manipulação das manifestações
artísticas para objetivos comerciais, como o Carnaval,
que “virou um espetáculo para brancos”.
Imigrantes
O relatório ressalta que a discriminação
não ocorre apenas contra negros. Segundo a ONU, o
Brasil precisa treinar seus agentes de fronteiras para respeitarem
os direitos de refugiados e imigrantes.
Quanto à imigração latino-americana
em São Paulo, que chegaria a 150 mil, Diène
destaca que são alvos de discriminação,
vivem com medo da polícia e não conseguem
ter acesso à saúde e educação.
Para que uma família seja legalizada, os custos exigiriam,
em alguns casos, o salário de todo um ano.
Recomendações
Para tentar lidar com a realidade brasileira, a ONU enumerou
mais de 35 recomendações. Uma delas prevê
a criação de uma comissão de reconciliação
e verdade sobre o racismo, além de destinar mais
recursos para programas de combate à discriminação.
Diène ainda pede que medidas sejam tomadas para lidar
com a violência e o treinamento de procuradores e
juízes especializados na questão racial. “O
Judiciário é muito conservador e com preconceitos
raciais”, afirma. As recomendações também
falam na inclusão de classes de história da
África nas escolas, a criação de um
memorial para as vítimas da escravidão e ações
para garantir o acesso dos negros às universidades.
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