Renúncia
à presidência do Senado dá início
a corrida sucessória e complica votação
da CPMF
BRASÍLIA - O senador Renan Calheiros (PMDB-AL)
foi absolvido ontem pelo Senado, pela segunda vez, da
acusação de quebra de decoro. A decisão,
por 48 votos a 29 e três abstenções,
livrou-o da cassação do mandato e da perda
dos direitos políticos. Renan, porém, renunciou
à presidência da Casa antes do julgamento,
o que deu início imediato à disputa pelo
cargo e pode atrapalhar a aprovação da prorrogação
da CPMF.
Os
senadores julgaram improcedentes as acusações
de que o peemedebista teria utilizado ‘laranjas’
na compra de duas emissoras de rádio e um jornal
em Alagoas. Em setembro, Renan já havia sido absolvido
das acusações de ter utilizado dinheiro
de lobista para pagar pensão à jornalista
Mônica Velloso, com quem tem uma filha.
A
sessão de ontem foi aberta, ao contrário
do julgamento de setembro. A votação, porém,
foi secreta. A expectativa era de absolvição
antes mesmo de Renan renunciar à presidência.
Os senadores passaram a maior parte da sessão,
que durou cinco horas e 20 minutos, mais preocupados em
discutir a escolha do novo presidente para a Casa.
O
senador Renan Calheiros (PMDB-AL) deixou o Plenário
da Casa dizendo que está "muito feliz"
e que, daqui pra frente, será o senador "paz
e amor". Ele disse que teve a oportunidade de mostrar
a seus colegas e a toda a sociedade que tudo o que disseram
contra ele era mentira.
VOTOS
DECLARADOS
“Isso
aqui não parece sessão de julgamento. Está
todo mundo falando de tudo, menos apresentando a acusação
e a defesa”, protestou Pedro Simon (PMDB-RS). Renan
levou dois minutos para ler o texto de 24 linhas sobre
sua renúncia. Com as mãos trêmulas,
o peemedebista iniciou o pronunciamento agradecendo aos
colegas que, “com sua amizade, apoio e confiança,
distingüiram-me para ocupar, por mais de três
anos”, a presidência da Casa. Como no primeiro
julgamento, a mulher do senador, Verônica, acompanhou
o marido no plenário. “Renuncio ao mandato
de presidente do Senado sem mágoas ou ressentimentos,
de cabeça erguida, demonstrando, mais uma vez,
que não usei prerrogativas do cargo para me defender”,
disse Renan.
Apesar
de o presidente interino do Senado, Tião Viana
(PT-AC), ter avisado que não seria permitido a
revelação dos votos, alguns não cumpriram
a determinação. Um dos mais enfáticos
a favor de Renan foi Epitácio Cafeteira (PTB-MA).
“Vou votar pela absolvição porque
não vi nenhuma prova”, avisou. Francisco
Dornelles (PP-RJ), que no primeiro julgamento foi um dos
principais defensores de Renan, alegou que ele não
poderia ser condenado porque o relatório pedindo
a cassação foi feito por um adversário
político de Renan — o senador Jefferson Peres
(PDT-AM).
Um
dos que falou pela cassação foi o líder
do PSDB, Arthur Virgílio (AM). Ele advertiu que,
“na tradição antiga do direito, o
indício não valia como prova”, mas,
com a evolução do direito, “indícios,
desde que robustos, adquiram valor de prova sim”.
Demóstenes Torres (DEM-GO) foi enfático
pela cassação. “Se não serve
para ser presidente, não serve para ser senador”,
afirmou. Renan acompanhou os discursos sentado à
primeira fila.
O
ex-presidente do Senado poderá ter de enfrentar
o plenário da Casa de novo. Ele responde a outros
dois processos por quebra de decoro. Os casos estão
no Conselho de Ética e envolvem arrecadação
ilegal de dinheiro em ministérios comandados pelo
PMDB e espionagem de senadores favoráveis à
sua cassação. A expectativa é que
o Conselho arquive as representações. Para
Jefferson Peres (PDT-AM), a vitória de ontem ajudou
Renan. “Ele será absolvido dos outros também”,
disse.
Três
candidatos ao cargo
Mal
Renan Calheiros renunciou à presidência do
Senado, começou a disputa por sua sucessão.
O PMDB, maior bancada na Casa — que, em tese, tem
preferência para ocupar o cargo — já
tem pelo menos três pré-candidatos. O presidente
interino do Senado, Tião Viana (PT-AC), marcou
ontem a eleição para a próxima semana.
Líderes partidários se reunirão terça-feira
para definir a data.
A
disputa entre os peemedebistas está levando a oposição
a pensar na possibilidade de disputar a vaga. “Se
este nome (do PMDB) não passar pelo nosso crivo,
nós vamos exercer o direito de lançar uma
chapa das oposições”, disse ontem
o líder do PSDB do Senado, Arthur Virgílio
(AM).
O
sonho dos líderes do PMDB era ter o senador José
Sarney (AP) como candidato, mas ele vem resistindo à
proposta. Quem já está em campanha declarada
pela vaga é Garibaldi Alves Filho (RN), que diz
ter apoio da maioria da bancada do PMDB. Os outros dois
pretendentes ao cargo são Neuto de Conto (SC) e
Valter Pereira (MS). Os peemedebistas se reúnem
amanhã para discutir o assunto.
Mais
dificuldade para a CPMF
A
saída de Renan Calheiros (PMDB-AL) da Presidência
do Senado pode ser um fator complicador para o governo
aprovar a prorrogação da CPMF. A oposição
acredita ter votos para derrubar o imposto e pode tentar
colocar o projeto em votação amanhã.
Já os governistas querem adiar a decisão
para a próxima semana, para ganhar tempo e tentar
conquistar votos dissidentes de oposicionistas.
A
intenção do governo é aproveitar
a disputa pela escolha do novo presidente do Senado para
votar a proposta. A meta é colocar o assunto em
pauta antes da eleição do sucessor de Renan.
Assim o governo teria como negociar o apoio do PMDB, em
troca de ajuda dos governista para eleger o candidato
do partido à presidência da Casa.
“O
‘feeling’ é que a votação
seja apenas na semana que vem. Provavelmente não
será nesta quinta-feira”, disse o líder
do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR). As
contas dos governistas indicam que ainda não foram
obtidos os 49 votos necessários para aprovar a
CPMF.
REPERCUSSÃO:
CRÍTICAS AO RELATÓRIO
Enquanto
a oposição diz que a absolvição
aconteceu devido ao acordo pela aprovação
da CPMF, governistas dizem que o relatório de Jefferson
Peres era frágil por se basear apenas em indícios,
e não em provas.
“O
Renan fez uma defesa que tocou muito os senadores, porque
muitos deles também tem concessões.”
Marcelo Crivella (PRB-RJ)
“Atribuo
a absolvição à incompetência
da acusação. Negócio criminal é
muito sério. Só vale prova, indício
não vale.” Paulo Duque (PMDB-RJ)
“O
próprio Jefferson Peres não acreditava que
seu relatório baseado em indícios fosse
aprovado.” Francisco Dornelles (PP-RJ)
“Eu
me surpreendi com a absolvição e com o número
de votos que ela teve. Prova de que os senadores perderam
a vergonha na cara.” Demóstenes Torres (DEM-GO)
“Acho
que a acusação foi fraca, não foi
bem feita. Podia ter sido melhor”. Sérgio
Guerra (PSDB-PE)
“Ficou
visível que houve um entendimento anterior. A renúncia
assegurou a absolvição. E ele escolheu o
melhor momento para a renúncia. Se renuncia muito
antes, o impacto não seria o mesmo.” Álvaro
Dias (PSDB-PR)